A primeira nota proferida pela pequena boca vermelha foi quase grave, longa e causou tanto em Eve quanto em Josh uma sensação totalmente nova, diferente do que a moça, estática pela surpresa, sentira em toda a sua vida. A cada novo som, ora lento, ora acelerado, a música se tornava mais profunda e Evelyn se lembrava menos do que estava fazendo ou querendo. Deixou de ver o local onde estavam e até o próprio companheiro de cilada para enxergar sonhos há muito esquecidos dentro de seu cérebro. Dentro desses sonhos, memórias de sua infância que jamais se lembraria normalmente foram aflorando e Eve cada vez mais se distanciava da realidade a sua volta.
Quando ouviu a primeira nota da música, o velho chanceler já sabia quem estava enfrentando e sabia que tampouco seria eficaz bloquear a audição. Enquanto a música perfeita e sinuosa daquela que se entitulava A Cantora entrava por seus ouvidos e tentava ludibriar sua consciência, seu cérebro treinado pelos anos de aprendizado buscava a solução para aquele risco. O cântico dos amaldiçoados que acabara de ler não teria utilidade porque, ao contrário de seus comparsas estirados incoscientes no chão, a mulher era totalmente humana e o que a movia era apenas a ambição pelo que O Lorde a prometera, seja lá o que fosse. A firme realidade do armazém se desfazia ao seu redor quando num esforço de alguém que muitas léguas há muitos dias, aproximou sua boca do ouvido de Evelyn e gritou o mais alto que pôde:
– Eve está morrendo.
O corpo da moça estremeceu, mas ela não saiu do transe. O chanceler, vencido pela música, fixou seus olhos em lugar algum e ficou imerso em seus próprios sonhos perturbados. Triunfante, A Cantora se aproximava e cada vez mais alto cantava sua música. Ela havia vencido. Ambos eram seus.
– Eve! – gritou uma pequena garotinha, da mesma entrada por onde viera a vilã. Era Thais.
Sem parar de cantar ou sequer tremer sua bela voz, A Cantora virou e pareceu surpresa. Talvez aquilo que brotava no fundo de seu olhar fosse medo. Caprichou nos semitons e produziu a mais bela música de que era capaz, lembrando das batalhas que vencera pelo Lorde, quando milhares de guerreiros ficavam pasmos diante de sua voz. Em tantos mundos estivera e saíra vitoriosa. Muitos homens e mulheres simplesmente tornavam-se indefesos quando ela cantava, entre eles muitos dos mais terríveis inimigos do Lorde e ainda essa pequena criança ignorava seu talento. Os olhos da pequena não expressavam ira ou medo. O que se via no rosto de Thais era alívio enquanto olhava para o velho e sua amiga ainda em transe.
O cômodo principal do armazém onde estavam era largo oito metros e ainda mais comprido que isso, com doze metros de paredes à esquerda e direita da mulher, ao fundo da qual ficava duas portas, uma delas onde estava presa Eve anteriormente. Na parede da direita ficava a porta ponde onde viera e que também levava à escadaria e os quartos. À esquerda, uma outra porta fechada e entre esse espaço, muitas grandes caixas de madeira de vários tamanhos.
Thais estava de costas para essa caixa e de frente para a mulher, atrás dela Josh e Evelyn em transe. Vendo que sua música hipnótica não afetava a garota, a mulher gritou. Sua voz agora pesada, eletrizava o ar e produzia um vento anormal no ambiente. Papel, plástico e lixo que ali haviam saíram voando e as caixas ao fundo começaram a trincar, algumas simplesmente se rompendo. Thais protegeu o rosto com a mão esquerda enquanto a força do vento fazia seus cabelos esvoaçarem e sem que ninguém ouvisse ela falou.
– Eu quero que você se cale.
A voz da mulher sumiu e ela levou a mão à garganta aterrorizada. Nesse mesmo instante, Josh e Evelyn recuperaram-se e correram para a menina.
– Vamos sair daqui!
Abriram a porta à esquerda esperando encontrar uma saída e se depararam com um cômodo fechado decorado com peças antigas. Muita coisa ali chamava a atenção e entre essas coisas, um círculo de pequenas pedras cintilantes. Cinco pedras dispostas em círculo de cores instáveis. Verde, vermelho, amarelo.
Josh observava cada item com renovado interesse e Evelyn olhava para tudo com espanto, imaginando para que alguém ia querer coisas tão estranhas, como aquela estátua de quatro braços que parecia dançar imóvel, ricamente detalhada. Thais correu para o meio do círculo pedras, sem saber porque o fazia e fechou seus olhos. Tudo ficou negro para ela e, apesar de não ser sábado, o universo infinito girava ao seu redor. Ainda ouviu o grito de sua amiga chamando seu nome e se perdendo no vazio.
As trevas girando, a dor, a incerteza. Tudo ali parecia querer impedir que a menina chegasse ao fim do buraco de trevas que a sugava vorazmente para seu interior. Como das outras vezes a dor a vencia quando Thais teve certeza do que devia fazer e desejou fortemente alcançar o fim do vórtice. Contato.