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Realidade - Capítulo 3
Vem cá enfermeira, seja boazinha...
• Por hioto em 20 de Março de 2009

Sem ter como pagar um taxi naquele momento e naquele horário, Evelyn decidiu ir ao ambulatório a pé. Não havia outro modo, tinha que estar lá ainda nessa noite. Dezenas de pensamentos, anseios e medos ocupavam sua cabeça enquanto, com passadas grandes ela se dirigia ao seu local de trabalho, sem parar para nada e sem olhar para ninguém. Há quase duzentos metros do seu objetivo, tendo apenas que dobrar uma esquina, Evelyn mais uma vez se deparava com a violência noturna de sua cidade: um grupo de três homens jovens viraram a rua que ela iria atravessar e vinham em sua direção, olhares maliciosos e semblante alterado por alguma reação química. Esses mesmos homens a rodearam enquanto ela apertava sua pasta junto ao peito temerosa.

Olha o que temos aqui pessoal – urros e gargalhadas espalhafatosas sairam dos outros dois. – Vem cá enfermeira, seja boazinha. – O desespero se tomou conta de Evelyn e tudo aconteceu muito rápido.

Nessa mesma noite quente e barulhenta, Thais sonhava, dessa vez dormindo, deitada no sofá do apartamento de sua amiga. Os sonhos dela enquanto dormia eram ainda mais estranhos que aqueles que sonhava acordada e embora nunca fossem cansativos ou aterrorizantes, seria difícil entender como sonhava durante o sono, a pequena.

Acordou subitamente e sorriu quando viu que Josh estava a vigia-la enquanto dormia. Ele sorriu de volta e se sentou no braço do sofá.

Você veio me contar o resto da história?Thais sentou-se interessada, enrolada numa toalha que ali estava e lhe servia de cobertor.

Sim minha pequena.

Prometo não dormir no meio da história. É que minha mãe sempre parava quando via que eu ia adormecer.

Você gostava muito mesmo dela não?

Sim.

Tente não sentir tanta falta dela Thais.

Porque?

É preciso aprender a deixar ir aquilo que já se foi. Bom, fique confortável para ouvir mais.

Eles viveram muitos anos sossegados na casa abaixo do gelo. Era um lugar difícil de descrever: a entrada era uma simples caverna cavada numa rocha pequena, coisa rara naquele lugar porque a esfera de gelo não tinha montanhas ou montes. Quem entrasse naquela caverna de cerca de um metro e meio de comprimento e largura, teto baixo, não conseguiria ter acesso à casa deles sem conhecer os segredos dela.

Assim eles continuavam lá, se escondendo e foram se tornando muito mais próximos um do outro, exceto pelo menino branco, que estava inconsciente a maior parte do tempo, graças a energia que carregava no corpo.

Como era isso?Thais perguntou tentando imaginar uma pessoa cheia de energia.

Ele era um menino normal da sua idade. Não havia nada de diferente nele, exceto pelo fato de que estava sempre dormindo. Sua pele era muito alva e o toque lhe era quente. Os mais sensitivos percebiam nele uma energia enorme.

Não a energia elétrica que liga os aparelhos da sua casa ou desse apartamento – continuou Josh sabendo que a curiosidade de Thais iria interrompê-lo para perguntara isso – uma energia como a energia que faz a grama crescer, que mantém o sol brilhando. Antes do início do universo negro...

O que era esse universo negro?

Sem mostrar resignação, o velho Chanceller preparou-se para explicar mais uma vez detalhes de sua história para a pequena. Ficava impressionado em ver que ela prestava atenção em tudo e em como os olhos dela lembravam... afastou tais pensamentos.

Fora do mundo primário, nos outros mundos habitados do universo, existiam pessoas com dons especiais. Alguns poderosos o bastante para moldar a realidade ao seu redor. Quando o lorde tomou o controle dos mundos centrais, adquirindo o poder sobre a maior parte dos mundos onde existia vida, ele declarou a lei do universo negro: todos aqueles que faziam magia, por assim dizer, teriam que se apresentar no palácio imperial. Muitos assim fizeram e muitos fugiram ou se esconderam. No final das contas, só sobrou Hayamund. Para aqueles que, como você Thais, podiam controlar essa coisa estranha chamada magia, universo negro é sinônimo de morte e sofrimento.

Então – conclui a menina – se eles se escondiam na casa sob o gelo, eles todos podiam fazer magia. A grande mãe devia ser bem poderosa para ter se tornado rainha de tantos mundos. O garoto branco era uma fonte de energia inestimável e Hayamund, o senhor já disse que era o último dos magos do universo. Isso significa que o senhor também pode fazer magia?

Uma vez mais o velho se impressionava com a clareza de pensamento daquela menininha de oito anos apenas. Observou-a atentamente como se procurasse algo oculto em seus olhos e uma sensação forte que ultimamente lhe era muito comum o atingiu novamente. Sorriu um misto de descontração e reflexão.

Dessa vez você errou minha pequena. Eu era procurado pelo meu conhecimento. Ao longo dos anos eu vi e descobri muita coisa e tenho uma memória tão boa quanto minha capacidade de aprender, então, pode-se dizer que eu era uma biblioteca viva. Some-se a isso o fato de eu saber o caminho para o mundo primário, entre outras coisas e você vai ter um recurso valioso para um imperador como o lorde.

Antes de continuar, uma chave girou na fechadura da frente do apartamento e entraram duas mulheres. Uma delas era Evelyn. A moça estava suja de terra e com cheiro de rua. Havia algumas pequenas gotas vermelhas manchando sua roupa. Sendo a primeira a entrar, sua cara de raiva tornou-se uma expressão também de medo quando viu Thais sentada no sofá.

Ora. Então além de espacamento, vou ter que te acusar de furto de crianças também? – a segunda mulher, alta e forte demais para um mulher normal, entrava calmamente pela sala do apartamento. Seu olhar profissional observava tudo a sua volta e deteve-se nas compras ainda na caixa que Evelyn não saberia dizer como vieram parar ali, embora já tivesse suspeitas. Thais observava as duas e o velho, a quem elas pareciam ignorar.

Ei, pera aê – falou Evelyn nervosa. A verdade é que ela não sabia o que dizer.

Irmã, quem é essa mulher? O pai já terminou de arrumar o carro?

Ele deve chegar logo Thais. – mentiu Evelyn, surpresa com a velocidade de pensamento da menina. – ficou de pegar as pizzas no caminho.

Ora... – falou sem jeito a policial. – Eu estou mais interessada em saber como você fez aquilo do que em te levar presa Evelyn. Eu te conheço desde pequena garota e apesar de não concordar com o jeito que você está vivendo, gosto de você. Eu era amiga da sua mãe antes de você nascer.

Obrigado Rute. Eu não sei se saberia dizer como aconteceu... Thaís, acho que você deveria ir dormir no quarto, está tarde para você comer pizza também.

Pegou a menina pela mão e a levou para quarto. Rute, a policial, ficou na sala e, atenta a cada detalhe, resolveu checar as compras da dona do apartamento, quando a campainha tocou e ela atendeu, já que Evelyn estava longe.

Pois não. – disse a policial para o velho que estava a porta. Ele a observou e olhou nos olhos dela por um instante e o silêncio foi suficiente para que ela soltasse:

Não acha meio tarde para chamar na casa de um homem ausente onde mora duas moças solteiras e indefesas?

Na verdade eu vim falar com você, senhorita Keram.

Alto lá, como sabe meu sobrenome – falou perturbada a policial e por instinto, pos a mão sob sua arma.

Evelyn colocou Thais em sua própria cama, já que não havia outra no pequeno apartamento e, com um aceno de “fique aqui”, foi ver o que se passava na sala. Quando chegou, encontrou Rute sentada no sofá com os cotovelos sobre os joelhos, as mãos fechadas em frente ao queixo e um olhar distante e pensativo. Ela não respondeu as primeira e segundas chamadas, o que fez com que Evelyn tivesse que gritar.

Desculpa Eve. Ele tá certo...

Ele quem, do que é que você tá falando?

Não é nada. Apenas finja que nunca aconteceu nada essa noite. Eu resolvo o resto. – Antes que ela fizesse mais perguntas, Rute saiu apressada do apartamento.

Evelyn sentiu uma sensação estranha e se virou repetinamente, dando de cara com um velho senhor – Josh – sentado no sofá e a observando com um olhar divertido. Pegou um abajur que ficava na mesinha de canto e disse.

Q-quem é o senhor. – seus pensamentos agora faziam-na acreditar que estava no seu pior dia ou noite.

Tenha calma Evelyn. Eu quero apenas conversar.

Eu perguntei quem é o senhor. – falou alto e temerosa, desejando que Rute voltasse ao apartamento por ter esquecido algo.

Meu nome é Josh, eu...

Ele é meu amigo – disse Thais, sonolenta na porta que dava pro corredor. – Me conta mais história Josh.

Abalada por tudo o que lhe acontecia e pelas surpresas que a pequena amiga cada vez mais lhe trazia, Evelyn sentou-se muda e decidiu apenas observar. Thais sentou-se no sofá e sorriu para os dois. O velho sentou-se no braço do sofá, ajeitou a toalha para melhor cobrir a menina, sorriu constrangido para a moça no sofá e continuou a narrar sua história, sabendo que logo a pequena estaria dormindo de novo.

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