O Entregador de Doces
O Entregador de Doces - Capítulo Final
Está tudo acabado Alan...
• Por hioto em 17 de Dezembro de 2008

Quando o grito de Alan cortou os abafados sons da estranha batalha que ocorria naquele sombrio e úmido corredor, a noite serena e intensa foi abalada por uma forte luminosidade que começou no andar de um prédio condenado no extremo oeste e se espalhou para bem longe. Por um instante era dia na grande e turbulenta metrópole e dentro daquele andar onde Alan e Fabi se viam em apuros, tudo mudava.

Não havia naquele corredor nenhum ser de sombra ou sequer qualquer mero detalhe que denunciasse sua presença ali agora ou momentos antes. Apenas Fabi tateava cega pelo corredor, não pela escuridão e sim graças à luz forte e intensa que emanava do garoto. Quando ela o achou, no final do lugar onde estava, abraçou-o forte.

Está tudo acabado Alan.

Não... Você não entende...

Está tudo realmente acabado – falou uma voz que soava desdenhosa. Vinha daquele homem que agora estava no outro extremo do corredor. De terno preto muito bem alinhado, barba e cavanhaque grossos e negros, mal continha sua felicidade em estar ali.

Não vim enfrentá-lo garoto, mesmo porque percebo agora que somos lados opostos de uma mesma moeda.

O portador das trevas... – falou assombrado Alan como se avivasse algo morto há muitos séculos em sua memória.

O filho da luz – respondeu o homem e seu jeito triunfante incomodava quem o olhasse.

P-para trás – Apesar de estar de pé e sem ferida alguma, Alan aparentava estar fraco e Fabi se escondia aterrorizada atrás dele.

Nós poderíamos brigar por horas garoto, mas não temos esse tempo. Nós vencemos. Você não percebe a realidade oscilando? Tudo o que existe está no fim e seus preciosos seres humanos sequer percebem. – gargalhava agora. Sem entender o que se passava exatamente e nitidamente com medo, não do homem, Alan observava.

Em pouco tempo o homem fechou a cara e observou em volta. Parecia ver além das paredes daquele prédio sujo e úmido, além do véu de tudo que existe.

Não pode ser! O pacto... A Terra... – ora murmurava, ora gritava. – Só pode ser você! É preciso destruir você afinal.

Vá para casa Fabi. – falou baixo e urgente a garota atrás de si que, num lampejo rápido desejou sair dali.

Não! Ela fica – berrou o homem – Será a testemunha do que se dará aqui. Um privilégio raro criança. – sorriu desdenhoso.

Alan o observou e sentiu uma forte repulsa. Percebeu as sombras fechando o corredor acima e abaixo, em cada milímetro de parede. Balançou a cabeça de maneira relaxante e sorriu. Feixes de luz intensamente branca desprenderam-se de seu corpo e se espalharam velozmente rasgando as sombras do local que se adensaram em seguida. O que se seguiu foi um combate físico entre um homem adulto e um garoto de dezesseis anos. Cada soco de Alan espalhava feixes de luz brilhante que ofuscava a visão de Fabi, observando ao fundo. Cada golpe do homem era pesado como a bola de um guindaste contra uma parede e ainda assim o garoto os bloqueava com seus braços.

Como era desde o tempo onde não havia o tempo, antes do homem e suas eras, seus séculos, seus sentimentos e conflitos, antes ainda do próprio universo e do vácuo negro que o preenche, bem e mal se enfrentavam ferozmente, observados pelo tempo, neutro e imparcial.

O combate seguia feroz. Não havia mais corredor, não havia mais andar de prédio. A chuva caía torrencial sobre os três e a cidade em volta tentava em vão observar o que se dava naquele local. Sirenes anunciavam que os humanos estavam alertas para o que se passava ali, embora nenhum deles exceto Fabi tivesse a mínima noção do que acontecia.

No centro do andar que se tornara o topo daquele prédio, homem e garoto ofegantes se encaravam. Fabi ao fundo mal respirava.

Sabe qual diferença entre nós dois garoto? Eu sou mais poderoso claramente. Posso agüentar muito mais tempo e você não pode me destruir, nós nos anulamos.

Você não pode perceber a diferença. É pretensioso demais... – a luta recomeçava mais brutal, veloz e intensa que antes. Helicópteros rondavam o local, viaturas cercavam, policiais entravam nos andares inferiores mas ninguém conseguia ver, filmar ou alcançar o local.

Uma vez mais o homem avançou para o garoto, punho cerrado envolto em trevas. O ar rugia com o breve movimento, a chuva castigava os olhos fechados do garoto que estava de guarda aberta. Um instante silencioso e tenso, um baque surdo e poderoso, a mão fechada do homem atingia pesadamente o peito do garoto. Ossos se esmigalhavam com o contato e a dor se espalhava terrivelmente pelo corpo de Alan quando suas mãos seguraram firmes os ombros do homem. Mãos que mal puderam emitir uma fraca luminosidade porque o soco do homem arremessou longe o garoto e ele caiu imóvel na beirada do prédio.

O homem ergueu-se firme, triunfante como nunca e viu, sem ilusões, o corpo morto do garoto. Sabia que aquele corpo antes fora a essência de O Oitavo e sabia também que não significava o fim de Alan. Voltou-se para Fabi que tremia assustada no canto.

Não tente fugir. É inútil. – Um lampejo.

Você não pode escapar de mim garota e acredito que você tem a chave para eu acabar com o moleque de vez.   Um lampejo mais forte e mais intenso e o homem caiu de joelhos. Olhou impressionado para a garota mas a luz não vinha dela que nada fizera.

O brilho nascia do corpo do próprio homem que sentia-se estranho. Não conseguia pensar com a mesma clareza. Tentou firmar seus pensamentos e descobriu, num misto de espanto e uma estranha alegria, que não conseguia focar seu ódio e sua convicção para ser mau.

Voltou o que restava de sua essência profana para onde Alan estava e o viu se levantar calmamente. Não houveram palavras da boca do homem. Seu antes debochado e sombrio semblante não expressava nada. Estava vazio, lutava contra si mesmo, incapaz de aceitar o que lhe acontecia.

Alan! – gritou Fabi ao correr para abraçar o amigo.

Você está bem meu anjo? Falou carinhoso Alan com a garota que era apenas uma criança. Não houve abraço.

O que você fez? – Olharam para o homem cujo corpo parecia uma lâmpada. Faiscava e oscilava como se a luz o consumisse.

Eu aprendi muito essa noite Fabi. Não posso ficar mais. Se eu ficar tudo o que existe corre um sério risco e eu não estou falando dele e de seus companheiros. – O homem piscou uma última vez e a luz explodiu, as sombras se esvaíram e o local tornou-se novamente apenas o topo destruído de um velho edifício.

Fabi tentou o abraço, mas Alan estava etéreo.

E-eu preciso de você Alan. Estou com medo.

Eu que preciso de você Fabi. Preciso que use o que você tem para cuidar do meu corpo e dos meus pais. Ele vai voltar em alguns anos, se restabelecer e meu eu real precisa estar pronto.

A garota fez que sim com a cabeça tentando se mostrar forte. Presenciou o momento em que deixava de existir o entregador de doces para que o garoto Alan pudesse ter uma vida. Sabia que era responsável por ele e por muito mais. A cabeça de uma criança de nove anos seria capaz de suportar tal peso?

A polícia chegou confusa ao local e não encontrou ninguém. A tv não conseguiu nenhuma notícia ali e o cerco feito àquele prédio abandonado foi em vão. Fabi não voltou para casa. Foi ao encontro de Alícia e, acolhida pelo casal, se tornou a família de Alan. O garoto iria crescer e aqueles quatro enfrentariam tempestades e calmarias Essa já é uma outra história porque esse Alan, esse garoto, não entregaria sequer um único doce durante toda a sua vida.

Qualquer que tivesse sido o resultado daquele combate, pouco importava, porque o que o homem, o garoto e Fabi ignoravam, bem como toda a humanidade, é que não haveria um modo de existir o mal sem que houvesse o bem. O universo era a conseqüência disso e o ser humano, tão bom quanto ruim.

Cabe a cada um de nós escolher qual caminho iremos trilhar.

FIM

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