– Maldito seja você garoto – esbravejou o vulto – como pode saber esse nome? Porque está tão seguro de si? Olhe em volta! Olhe a sua situação! – Apesar dessas palavras, o estranho vulto que aparentava controlar tudo naquele local parecia atordoado. Mais uma vez o garoto falava:
– Você atravessou mais séculos que qualquer outro e ainda assim guarda resquícios de humanidade. Como pôde fazer parte disso? Diga-me Nagle, valeu a pena?
– Algo está muito errado aqui. Você está tentando me confundir. Acha que vai conseguir algo com isso?
O vulto emanava uma sensação que faria qualquer um congelar de tanto frio. O garoto tinha o rosto tranqüilo. Nem o cheiro do local ou o fato de estar morto pareciam abalar sua aparente confiança. Aquela insegurança sentida por Alícia em sua voz não existia mais. O vulto virou-se para onde deixara sua presa feminina e perdeu totalmente o controle – Alícia não estava lá. O assombro da criatura aumentou quando virou-se de volta na direção do garoto e permaneceu calado, incapaz de expressar sua ira e surpresa pelo que acontecia ali, em seu próprio território. Um sorriso não irônico, contido, fazia mudar a expressão de tranqüilidade e paz que sempre se via no rosto de Alan.
Alicia via zonza os ruídos dos mortos diminuírem e a cena em que o vulto e o garoto discutiam perder o foco gradativamente. O frio terrível daquele lugar foi dando lugar a um calor humano que desejava sentir a muito tempo. Parecia reconhecer a batida do coração no peito em que sua cabeça descansava. Acordou nos braços de Choi que chorava desconsolado, impossível conter lágrimas de uma dor tão profunda, perder a pessoa mais querida assim que se dá conta disso. O asiático parou de chorar e seu acelerado coração quase parou ao notar Alicia de olhos abertos, observando atônita seu comportamento nada comum. Um silêncio perdido, confuso tomou conta do ar dentro do belo carro parado da jornalista. A resposta de ambos não possuía palavras. Um abraço muito doloroso seguido de um longo beijo e depois, mais silêncio, quebrado pelo riso nervoso e descompassado de Choi. Riso de alívio, carregado de ansiedade e arrependimento. Novo beijo, seguido da primeira exclamação que pretendia colocar a realidade de volta ao eixo.
– Nunca mais me deixe assim!
– Eu estava morta, meu deus! Eu vi o inferno Choi! – Alicia estava nervosa, quase ensandecida.
– Depois do que passei de ontem pra hoje meu amor, não duvido de mais nada.
Recobrando a lembrança do vulto em seu carro e do doce que lhe fizera tanta falta, sem dizer nada, Alicia acelerou o carro ferozmente na direção do prédio onde redigia e finalizava suas sempre bombásticas matérias. Prosseguiram um tempo em silêncio até que Choi a advertia em suas arriscadas manobras pela grande avenida noturna da metrópole.
– Eu não vou destruí-lo Nagle. – o vulto tremia de ódio a cada vez que ouvia esse nome e uma onda invisível arremessava longe os esfarrapados seres que vagavam pela escuridão enevoada do local. A mesma onda balançava os finos cabelos amarelados de Alan e o tiravam da fronte.
– Diga-me o que você é garoto. De onde vem e porque está aqui.
– Eu sou Alan. Sou humano e não aceito as regras do seu território assim como não reconheço seu poder e não posso aceitar o que você faz aqui e na terra.
– Eu não o temo, mesmo que você se mostre capaz de me destruir.
– Não vou destruí-lo Nagle, mas não posso permitir que isso continue...
Choi e Alicia subiram pelas escadas sem saber exatamente porque, em silêncio e o mais veloz que puderam. Atravessaram o Hall do andar do jornal e pegaram o corredor que levava ao laboratório.
– Salve, minha gatinha! – exclamou o rapaz de branco, cabelo negro fino e óculos rasos que pareceu não notar a cara fechada de Choi em resposta a esse cumprimento. Havia no mesmo cômodo um outro rapaz que se apresentou como Thomas, esperando o cientista, averiguar algumas amostras que trouxera. Alicia puxou Jack um pouco pra longe e perguntou, ansiosa, pelo embrulho que deixara com ele.
– Hah, aquilo? Tremenda piada hein Alicia. É um doce muito bem feito. Onde...
– Você não o comeu não é? – berrou Alicia ainda mais abalada.
– Não, não. Está bem aqui. – tirou do bolso um pequeno embrulho. Nesse momento Jack caiu de lado como se desmaiasse, revelando atrás de si o motivo – Thomas tocara sua nuca, de leve e ele perdera os sentidos. Antes que pudesse pegar o doce, Choi foi mais rápido e o pegou. Alícia observava a confusa cena imaginando que estava diante de um homem nada comum ali.
– Vamos – gritou Choi e ela correu para ele e ambos para a porta que bateu violentamente. Por todo o laboratório as venezianas fechavam sequencialmente e as mesas se moviam para os lados, abrindo espaço entre Choi, Alícia e Thomas.
– Entregue-me esse embrulho – disse calmo Thomas. – Entreguem ou eu lhes apresento Erik, um grande amigo que vocês não gostariam de deixar irritado. – Ele falava com calma, seguro de si porque seu conhecimento lhe mostrava que estava diante de dois humanos que nada poderiam fazer para pará-lo.
– Vem pegar – desafiou Choi, interpondo-se entre ele e Alicia. Thomas sorriu desdenhoso e apontou a mão para o rosto do asiático que sentiu seus músculos faciais retesarem e todo o crânio tremer. Algo dizia a Choi que ele morreria ali e de alguma forma sentia-se feliz porque isso permitiria a Alicia escapar, já que como Thomas estava concentrado nele, ela poderia abrir a porta.
As mão de Choi e Alícia se tocaram e ele transferiu para ela o doce dessa forma. Entendendo o recado ela precipitou-se para fora da sala a correr, atingindo o final do corredor e ganhando rapidamente as escadas.
– Ela não pode escapar, não preciso ter pressa. Antes disso você vai pagar pela coragem idiota de se meter no meu caminho. – Dizendo isso Thomas fechou o punho e balançou o braço com força na direção do paralisado Choi. Uma dor de cabeça intensa aos poucos escurecia a vista do jovem asiático de vinte e dois anos que se preparava para encontrar a morte. Relaxou feliz apesar da dor e sentiu o frio da morte.
Sentiu ainda algo mais além da serenidade e da dor de quem está prestes a desencarnar – um forte gosto de leite queimado na boca.