Alan mostrava-se tranqüilo apesar de que esse era o adversário mais perigoso que ele já encontrara na metrópole, talvez em toda a sua vida. Tinha apenas dezesseis anos e já passara por coisas que uma vida toda não seria suficiente nem para ouvir falar sobre. Não havia como ter certeza de que ele era apenas o que mostrava porque dominava o conhecimento - não pelo menos sem utilizar métodos que Alan considerava impróprios.
- Não quero atacar você Erik. Não precisamos lutar, você é humano! Desista disso tudo por favor e siga seu caminho. Você ainda pode mudar seu destino aqui...
- Thomas pra você 'garoto' - gritou. E quando gritou sua mão aberta apontava como uma arma para o peito de Alan. Uma onda de vento soprou por um instante a orla e um forte impacto atingiu o peito do garoto que pela primeira vez deixou o pequeno saco de papel cair sobre o chão. Tombou de costas no solo, imóvel, cortado nas diagonais como se atingido por espadas invisíveis com uma violência tremenda. O jovem rapaz se aproximou do corpo inerte do garoto e conferiu: estava morto. Pegou o saco de papel com uma curiosidade incontida e abriu para ter uma surpresa ainda maior: estava vazio. Rasgou, amassou e jogou na lata de lixo. Apenas para ter certeza, acendeu um isqueiro e queimou o saco de papel. Satisfeito com os resultados melhores do que planejara, Thomas, ou Erik, seguiu seu caminho.
Respirando devagar, a mão no pescoço onde a mulher o mordera e nem sentia mais dor, um certo jovem asiático agora amaldiçoava quem quer que tivesse inventado a lenda dos vampiros. Pensou que as coisas não poderiam estar piores e se lembrou de Alicia que já o devia ter alcançado. Coração apertado, tentou o celular várias vezes: nada. Entrou no esportivo ignorando o que acontecera ali no banco da frente cujos vestígios já não eram claros e fez o caminho de volta, virando por intuito na rua onde a moça entrara. Parou o carro ao lado do sedan de Alícia, coração apertado e percebeu a triste sina daquela que já considerava a mulher de sua vida. Gritou inconformado e apenas os barulhos da turbulenta metrópole noturna o respondiam. Entrou no banco ao lado do corpo de Alícia e a abraçou forte. Porque sua vida desmoronara desde que conheceu aquele maldito garoto de cabelos amarelos? Estúpido, com aquele saco idiota na mão e que lhe fizera comer, por remorso, aquele doce com gosto de leite queimado. Amaldiçoou o doce, o garoto, a burrice de não ter vindo junto com sua amada e a deus, em quem fora ensinado a acreditar desde criança, em quem secretamente depositava sua confiança, até mesmo quando ia farrear.
Em algum lugar diferente de tudo a que seus olhos estavam acostumados, Alícia os abriu. Era um pesadelo - poderia ser uma grande caverna enevoada onde não se podia ver o teto e apenas sentir o chão de pedra fria. Uma luz azul esbranquiçada bem ao longe não iluminava o suficiente para se enxergar as paredes e, para desespero da jornalista, murmúrios e lamentos eram ouvidos distantes e próximos. Concluiu que estava louca porque acreditava estar no inferno. Refletiu sobre o que lembrava do ocorrido em seu carro, do vulto esquelético e fétido, pouco antes do que considerava sua morte. Sentiu-se triste por um momento, lembrando o quanto era dura com Choi e consigo mesma. Admitiu que gostava dele, que gostava até mesmo de Alan, a quem perseguia desde o dia do suicídio coletivo ocorrido no Wonder Palace. Chorou.
Enquanto chorava abalada pela infinidade de pensamentos que confundia sua hábil mente treinada pelos anos como jornalista, notou que vultos se aproximavam pela névoa e os lamentos se misturavam com grunhidos e risadas graves. O fedor do lugar aumentava e o medo invadia a alma de Alícia. Não sentia seu coração nem sua respiração. Temia todas as lendas e todas as assombrações de que ouvira falar. Estava quase totalmente cercada, cada vez mais presa naquele círculo de homens deformados e mau vestidos que avançavam sobre ela com um apetite nítido e se recusava a imaginar pelo que exatamente. Fechou os olhos e se encolheu aterrorizada, desejando acordar daquele pesadelo.
- Não ousem tocar nela - falou uma voz grave, inumana e que vinha do alto. Os vultos recuaram amedrontados e Alícia abriu novamente os olhos para o pesadelo. Acima de si pairava o mesmo vulto que estava em seu carro quando ela morrera. Não era sonho, não parecia real, mas era terrivelmente assustador.
- Meu lindo troféu - falou novamente o vulto e se aproximava de uma Alícia cada vez mais aterrorizada. - Você agora me pertence! De todos os que eu já trouxe você é a mais especial. Não só pela sua beleza mas pela sua importância para o futuro da guerra.
- Que guerra? Não ouse se aproximar mais coisa nojenta! - falou corajosa Alícia, mostrando uma ousadia imprudente para o momento, adquirida ao longo de sua carreira nada tranqüila ou segura.
- Não ouse mesmo se aproximar mais - repetiu autoritária uma voz ao fundo, não tão grave para ser um homem ou tão fina para ser criança. Quando essa voz falou, um fio de esperança brotou em Alícia porque ela a reconhecia. Não mostrava a mesma calma ou segurança, talvez pela urgência da situação, mas com certeza viera para salvá-la.
- Você aqui? - disse surpreso o vulto. - Então a temida incógnita, aquele que anda nas trevas sem ser visto está finalmente entre os mortos. Significa que falhou e também que não veio para salvá-la querida. - Dirigiu-se agora a Alícia debochado, como se soubesse seus pensamentos.
- Vocês são meus. Os mais importantes troféus de toda a terra e farão de mim o mais poderoso.
- Tape seus ouvidos, feche seus olhos e tente não pensar em nada do que está acontecendo - disse Alan de um modo que apenas Alícia ouvira e soava mais uma vez como um pedido gentil, não uma ordem.
- O quê? Porquê? Como você fala desse jeito? - Perguntou a moça e sua voz foi ouvida pelo estranho cenário.
- Eu lhe imploro m... moça. Faz isso por tudo o que você acredita e ama.
Não querendo repetir o erro ou as conseqüências de não ter comido o doce, Alícia tapou os ouvidos e fechou os olhos. Não era preciso distrair seus pensamentos porque seu aguçado sendo investigativo lhe alarmara para o fato do jovem tê-la chamado de moça. Não que não fosse uma moça, mas esse 'moça' fora claramente improvisado. Como percebia isso numa conversa tão estranha, sem palavras ditas, assustava ainda mais Alícia.
- Você... o Antigo... é assim que te chamam não?
- Cuidado com esse tom garoto - disse o vulto impaciente, ameaçador à Alan. - Você está morto e em meus domínios! Agora joga pelas minhas regras.
- Eu sempre quis vir aqui Nagle. Agora eu tive que vir e esse encontro é mais que oportuno por tudo o que você já plantou na Terra.