O Entregador de Doces
O Entregador de Doces - Capítulo 1
...que todos aqueles que você tocou possam dormir agora...
• Por hioto em 08 de Abril de 2008

Final de tarde, por volta de quatro e meia, andava pela rua da metrópole. Passos lentos como sempre, o vento de fim de inverno embaralhava seus finos cabelos amarelados embora o frio não fizesse diferença. Andava rápido apesar de não ter pressa e levava sempre consigo um pequeno saco de papel, sustentando pela mão esquerda. Trajava uma velha jaqueta jeans fora da moda, daquelas que não se vê há muito tempo. Seus pensamentos perdiam-se no seu objetivo mais iminente, pois era de seu feitio não se preocupar com o futuro distante, mesmo que ele fosse terrível e de grave importância.

Parou ao lado de um poste apagado em frente a uma velha pizzaria fechada. Virou-se para encarar quem ali estava. Não fora seguido, mas sabia que o encontraria ali.

Quem é você que não pode ser observado? – Disse o estranho. Voz grave, tom sereno que escondia um leve receio. Não obteve resposta imediata...

Porque está aqui criatura? O que é você? – O homem alto de sobretudo negro e chapéu dirigia-se ao garoto que segurava o saco de papel. Era de aparência jovem, talvez 15 ou 16 anos. Alto, nem magro e nem gordo, sua face demonstrava uma calma que incomodava. Finalmente respondeu.

Você... Teme aquilo que não pode vigiar. Tem sido assim por muito tempo não?
O homem, dois passos pra trás, olhar surpreso. As palavras pareciam não sair. O garoto continuou.

Sim, eu vim por sua causa. É hora de voltar pra casa. Ninguém mais será tocado pela sua mão.

Acha que tenho medo de você? Por eras, desde que os automóveis eram ilusão tecnológica, quando o homem ainda sonhava em voar, eu vivo entre eles. Porque acha que um reles garoto desarmado poderia me vencer?

É hora de voltar Charles. Seus atos, suas coleções ao longos dos anos desequilibraram uma balança importante.

Não! Quem é você? Como pode saber sobre mim e porque não vê aquilo que eu digo pra ver? Todos os humanos vêem! Você... não é humano... – O homem parecia cada vez mais assustado.

Eu sou humano como você pode ver... Eu não poderia enganar o mestre do disfarce, poderia?

Eu, estou tão perto... Só preciso de três dias. Lamento garoto, mas não posso deixá-lo em meu caminho. 250 anos. Agora que faltam três dias, não serei detido por um moleque.

O homem agora irradiava ira. As luzes da rua, dos becos e das casas se apagaram. Tudo estava escuro mas ainda assim, ambos podiam ver. O garoto estava parado, impassível e o homem, de punhos cerrados, parecia fazer muita força pra conter algo que ameaçava sair de dentro si.

Um vento muito forte soprava a rua agora. As latas de lixo tombavam, papel, latas, restos de toda espécie voavam pelo ar, atingindo as construções em volta, mas ninguém abria porta ou janela pra tentar observar.

É hora de voltar...

O homem parou. Tudo ficou quieto e o homem imóvel, estático, quase melancólico. O garoto andou em sua direção e pos a mão sobre seu peito.

Até breve Charles. Que todos aqueles que você tocou possam dormir agora. - Silêncio no beco, tudo iluminado, até se podia ouvir um televisor ligado em algum lugar.

Um negro sobretudo e um tosco chapéu estavam no chão no lugar onde antes o homem estava. Nenhum sentimento se mostrava no rosto do garoto, exceto talvez pela ingenuidade da adolescência que exprimia sua face branca, quase sem espinhas. Virou-se e dobrou a esquina. Havia ali um carro onde uma bela mulher de cabelos castanhos observava a rua com olhar intrigado, parecia insone. Entrou no carro no banco ao lado da mulher que tomou um susto quando o garoto lhe estendeu a mão com um pequeno embrulho, provavelmente saído de seu saco de papel inseparável.

Aceita?

Como assim aceita??? Sai já do meu carro moleque! Seu... isso é...

Gengibre e canela – confirmou o garoto.

Como... quando... por que...

Desista disso Licinha, você pode estar correndo risco de vida. Não vai conseguir um furo comigo. Não hoje, nem nunca.

Não me chame assim! Esse doce, esse apelido... Você conheceu minha avó? Como poderia... tão jovem...

Saiu do carro e continuou pelo beco, a passos largos, embora não demonstrasse pressa alguma.
Alicia Norris, a melhor jornalista de um grande jornal da metrópole, a que conseguia a melhor das reportagens, agora perseguia lendas urbanas. Não iria perdê-lo dessa vez... não dessa vez. Acelerou o novíssimo carro, mas não queria funcionar. O garoto quase sumia no beco e dobraria a esquina em segundos. Saiu do carro apressada e correu. Tão perto...  nem que fosse preciso amarrá-lo precisava de respostas. Queria saber como o garoto escapara de dentro da saleta onde ela o trancara da ultima vez antes de ligar pra ambulância no caso do Wonder Palace Building...

Dobrou a mesma esquina que dava numa avenida, o garoto não poderia estar longe. Como se esperando por ela, no chão, sobre uma muito limpa e branca folha, um embrulho e um recado escrito no papel que dizia:

“Gengibre e canela Licinha. Nos vemos de novo em breve, onde o sol nasce mais tarde e o mar quebra sereno o ritmo do pesado trabalho dos homens”.

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• Em 15/08/2008
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