Den e o Dragão
Den e o Dragão - Capítulo 5 - A Casa dos Encantadores de Feras
Prazer em conhecê-lo Dungh. E o dragão, tem nome?
• Por marcus em 04 de Fevereiro de 2009

Afastado quase meio dia de caminhada da comunidade mais próxima e aninhado junto a um grande rochedo, encontrava-se o lar de Roderic e seu pai. Tal morada consistia em apenas três paredes de madeira com um teto feito de peles de animais costuradas e armadas sobre o forro, os fundos eram cerrados pela rocha nua com as frestas de junção da pedra com a madeira cobertas por barro. Bem antes disso, existiam árvores antigas, pinhos compridos e secos, uma neblina gelada e a sombra de uma paliçada de estacas compridas se espalhava por um dos lados da cabana.

- Um campônio me disse que teu pai é um encantador de feras. Tendo dias ruins? Den disse, indicando com o cabo de seu machado o cercado vazio.

- Não, mestre anão, os negócios de meu pai têm ido bem. Há poucos dias ele vendeu, para um cortesão, uma raposa-brisa e dois ursos cinzentos. Deve ter saído com o grupo novo que capturamos. – respondeu, ponderado e com muita calma, Roderic, à provocação do anão.

Den, contudo, achou no orgulho ferido do rapaz uma boa fonte de informações. O pai dele deveria servir para o fim que tinha naquela visita. Seu companheiro, o dragão, esquecia da presença deles e entregava-se ao exame dos novos cheiros daquele lugar. Nas árvores e nas cepas de troncos, na trilha bem marcada por pisadas fortes e... Roderic estava na frente do jovem dragão antes que ele corresse para o cercado.

- Calma lá, os moradores não vão gostar de saber que esteve alguém na casa deles enquanto estavam fora. Vamos esperar que eles voltem primeiro. Mestre anão, têm lugar para passar a noite? Roderic abaixava as mãos e as levava em direção aos pescoços do dragão, que acatou a instrução de esperar porque os gestos usados eram bem claros e o tom da voz sugestivo. Além disso, havia cheiro de carne vindo da cabana.

- Já está tarde e só chegaríamos em uma estalagem na aurora. O único lugar para passar a noite é a estrada.

- Então fiquem aqui, meu pai pode vir a passar a noite inteira no passeio. Enquanto ceiamos e esperamos, poderia me contar como conseguiu este filhote de dragão. Roderic deixou o afago no dragão para ir à porta, deixando ela aberta para que os dois entrassem.

- Prefiro esperar calado e tratar o assunto com o mestre de feras pessoalmente. Den responde, aguardando que o dragão entrasse para segui-lo cabana adentro.

Roderic deu de ombros, fechou a porta e foi direto à lareira buscar uma chama para acender o lampião. As três cabeças já fungavam por toda a parte. Começaram a beliscar o ar buscando algo acima delas, que com o lume aceso por Roderic, revelou-se um poleiro com uma ave de penas multicoloridas e compridas. Ela grasnou incomodada e o dragão recuou para preparar um bote certeiro. Roderic não pareceu preocupado e, talvez por isto, Den também não. Quando o filhote saltou de asas e garras abertas sobre a ave, ela lhe fitou com seus olhos azuis bem escuros e o dragão guinchou de dor por um momento, errando o bote terrivelmente, enquanto o pássaro levantava vôo para um poleiro do outro lado.

A queda foi seguida por um rolamento até que o dragão bateu em um cesto de vime e parou, enrodilhado em uma bola de cauda e pescoços. O som da queda foi coberto pela risada de Den. Roderic sorriu amarelo e andou devagar para perto da ave, levando como mimo um gérmen de trigo.

- É uma ave-íris, mais que um pássaro ornamental, é um vigilante excepcional. Um olhar e ela atinge a mente do agressor. É como o mestre das serpentes, o basilisco – eu acho – mas como não é um predador, o dom dela não paralisa, só atordoa. – ao término da explicação, a ave-íris já tinha levado o alimento pelo bico e piava satisfeita.

- Interessante. – soou baixa e grave a voz de Den, enquanto passava a vista pelo lugar.

Tapetes de peles de ursos – ou animais parecidos com ursos – cobriam boa parte do chão rochoso. Cestos e baús deviam guardar os objetos pessoais daquela família, lanças e arcos estavam pendurados nas paredes, combinados com espetos de lenha, pedaços de carne seca, um lenço nas cores marrom e amarelo e um prato decorado. Uma combinação fortuita, pelo que entendia Den. Na lareira, uma panela de ferro ferventava o miolo de ossos, preparava-se uma refeição forte ali.

A cabeça da esquerda puxava o corpo na direção das carnes penduradas, a mediana atentava para o cheiro forte da panela e a da direita permanecia tonta pelo golpe mental.

- Sente-se, mestre anão, vou lhe servir um pouco de caldo. – dizia Roderic, pegando uma peça de carne seca e cortando em três partes com a faca que tinha em sua cintura, assim mantinha o dragão ocupado enquanto se distraía com a panela. Enquanto sorria ao ver o ânimo das cabeças de dragão em comer, algo lhe veio à mente. – O seu nome, Mestre Anão, ainda não sei. Como devo chamar o hóspede que levo a casa de meu pai? – sorriu outra vez, mas agora constrangido.

Dungh havia demorado para se sentar, cansado e com dores no corpo, preferiu ir com cuidado. Quando finalmente se sentou, ouviu a pergunta e tornou a se levantar, para fazer uma reverência honrosa e se apresentar.

- Dungh. É como os homens costumam me chamar. – não diria seu nome de anão a qualquer homenzinho que lhe perguntasse, Den tinha esta convicção. Pela cultura de seus ancestrais, saber o nome de alguém é ter poder sobre esta pessoa. Um anônimo é uma pessoa livre para fazer o que quiser, embora não tenha muitos que nele confiem...

- Prazer em conhecê-lo Dungh. E o dragão, tem nome? – removeu a tampa da panela e aspirou o odor de gordura do caldo. Tomou um caneco de barro cozido e uma concha de madeira, servindo o jantar do anão.

Den ficou movendo os lábios e a pensar sobre o nome do dragão, aproximava-se lentamente de Roderic para pegar o caneco de caldo. Com a comida em suas mãos, bebeu e virou o rosto para o dragão filhote. Começou a reparar nas feições de cada uma das cabeças.

- Não tem nome não. É meio estranho dar nome a um bicho de três cabeças, ainda mais quando elas são tão diferentes uma da outra. – respondeu e voltou a beber do caldo. – está bom isto aqui!

Roderic apenas concordou quanto ao sabor, sua feição expressava negação ao argumento do anão, não havia tantas diferenças nas cabeças do dragão, eram mais como detalhes. A cabeça da esquerda, primeira a terminar o pedaço de carne, era um pouco mais fina, os olhos mais estreitos e o focinho mais pontiagudo. Seus caninos eram levemente mais proeminentes que os das demais e os fundos de sua cabeça eram enrugados, mas não tinham caroços ósseos como as outras. A do meio tinha estes “chifres” bem visíveis, eram como calombos em cor mais cinzenta que o normal das outras escamas, o focinho desta cabeça era mais chato e também revestido por uma couraça mais forte, lembrando um bico na parte superior e numa ponta do lábio inferior. A da direita, somente agora recuperada do ataque da ave, terminava de mastigar, sua boca era um pouco menor e também seus caninos. Esta cabeça tinha os olhos mais chatos, a fronte larga e repleta de pequenos chifres rombudos, como escamas levantadas, assim como dois outros eram notavelmente maiores, como os dos cabritos, em sua cabeça. Eram muitos detalhes, pensava agora Roderic, mas ainda eram muito semelhantes também. Como irmãos costumam ser.

- Posso pegar mais? – perguntou Den, levando sua mão à concha na mão de Roderic, que se viu interceptado em meio ao fito dedicado ao dragão, que agora notava o interesse por sua figura e olhava firme de volta. Roderic entregou a concha e perguntou:

- Pensou em dar nomes individuais para eles?

- Talvez. – encheu o caneco e voltou a beber o alimento. – Tem alguma cerveja para misturar com isto aqui? Já que não tem sal, piorar não vai! – e riu Den da sua própria contradição. Havia elogiado o caldo, mas não era comum que estranhos gostassem daquela comida do pai de Roderic, um caldo espesso de gordura quase sem tempero,... Mas misturá-lo com cerveja, era difícil de imaginar alguém com estômago tão forte!

- A-acho que tem sim. Meu pai guarda num barril que compra na taverna.

- Ótimo, pode me servir então. – o anão estendeu seu caneco meio-cheio, ou melhor, meio-vazio.

Roderic franziu o cenho, não gostava de desperdiçar comida, o anão ia acabar pondo aquilo para fora. Mas cedeu e foi a um barril encher o caneco, fez isto usando um pedaço de chifre amarrado no suporte ao lado. O dragão se aproximou nesta hora, interessado no cheiro do caldo.

- Aqui está, ei, o dragão também quer. Vou pegar uma panela para ele. Será que ele come ossos? – perguntou-se o rapaz, falando sozinho, ao entregar o caneco e dar meia volta rumo às panelas e bacias.

- Deve comer até pedras. Isto é um faminto! – exclamou Den, ainda sentido pela mordida que levou segurando a fome do dragão no braço. Por outro lado, bebia de uma vez só aquela mistura de caldo de cevada e aveia fermentados, a cerveja, com o caldo de gordura animal.

O anão limpa sua barba dos respingos com as costas da mão, o homem despeja na panela menor e mais rasa alguns pedaços de osso e caldo. Depois, segurava a panela para que o dragão comesse sem derrubá-la. Como o anão previu, não sobraram os ossos.

- Acha que pensam diferente, um do outro, como se fossem irmãos dividindo o mesmo corpo? – perguntou Roderic.

- Não acho, tenho certeza. Olhe para a do canto direito dele, calma e paciente, a última a pôr a cabeça na comida e a última a tirar. Lambeu até a última gota de banha. Nem por isso é menos brigão que o do outro canto, aquela cabeça lá é mais cobra que os outros três, só pensa em caçar e sempre ataca primeiro. O rapaz do meio é o mais sensato, escolhe o que come, impõe-se sobre os outros dois, tem mais coragem. Parece um leão.

- Leão,... Víbora... Bode? Não é uma quimera? Roderic ficou intrigado, além disto, o anão tinha percebido características muito mais profundas que ele. Também pudera, ele alegava ter visto o dragão nascer.

- Uma o quê? – perguntou Den, não gostando muito do nome, o dragão também levantou suas cabeças para entender.

- Um monstro criado por magia perversa, que transforma animais em uma nova criatura, com partes de todos os envolvidos. A criatura nova é muito agressiva porque seus instintos se confundem e geralmente só é fiel se encantada por um arcano. Do contrário, mata todos que se encontram em seu caminho. Dizem que a primeira Quimera tinha uma cabeça de bode, uma de leão e a outra de serpente.

- Leão, Bode e Cobra,... Para mim está bom, e para vocês?Den bateu nas costas do dragão, rindo-se ao mesmo tempo. O dragão se assustou um pouco, mas não ficou agressivo, exceto por “Cobra”, que estreitou suas pupilas fendidas para o anão e o homem. – Parece que temos uma unanimidade, mas não vamos chamar o bicho inteiro de quimera, porque como sabemos, ele é um dragão genuíno. Não é?

- Sim, ao que tudo indica, ele só lembra uma fera quimérica, não é que seja uma. Já ouvi várias histórias de dragões com várias cabeças, até mesmo de uma Deusa-Dragão, a qual tem cada cabeça de uma cor e que é senhora de todos os dragões que têm escamas nas cores dela. – contou Roderic num tom de segredo, pois falava de uma deusa temida nas terras dos homens, embora poucos dela soubessem mais que isto e alguns mitos em que ela era um flagelo mesmo para os outros deuses.

- Então... Vamos dormir, dragão. Barriga cheia e teto coberto, numa noite que segue um dia de viagem, não há hora melhor. – sem ligar para os contos de Roderic, ou para seu zelo, o anão ajeitou-se sobre uma das peles que serviam de tapete e cruzou os dedos sobre o ventre.

O dragão ainda parecia ter fome, mas como Roderic não podia lhe oferecer toda a comida da casa, tampou a panela e sussurrou para a ave-íris que guardasse os pedaços de carne, lhe dando em troca um mimo, um punhado de grão dourado que estava guardado em uma caixinha de vime. Bode, Leão e Cobra olharam para o jovem com muita atenção, percebendo que aquilo selava um acordo que lhes frustraria tentativas novas de comer, deitaram o corpo perto do fogo e de Den, cerrando os olhos para dormir. Não demorou e Roderic fez o mesmo.

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