Den e o Dragão
Den e o Dragão - Capítulo 16 - Uma Flor Nobre
É para abrir mais tarde, quando pararem em uma estalagem...
• Por marcus em 24 de Abril de 2009

- Crisântema. – sussurrou a voz da garota em certa noite, ainda acordada apesar de já haver um bom tempo que apagaram-se os fogareiros da torre.

- Quê? – ou algo parecido saiu de um grunhido do anão.

- O meu nome. Crissa é um apelido, o nome mesmo é Crisântema. Um nome grande para uma camponesa não é? – ela dizia em voz baixa, vexada de ser possível que Hermes ouvisse, certamente zombaria dela se escutasse.

- Verdade, camponeses têm nomes breves para os patrões poderem chamar mais rápido, quando são compridos, eles apertam do mesmo jeito num apelido... É um nome de uma flor, não é?

- Sim. – lhe respondeu, recolhendo mais a coberta sobre si.

- Se não me engano é uma flor bonita, fazem uns arranjos para templos e presentes com ela. Por que não te apresenta com seu nome inteiro?

- Tenho vergonha...

- Do quê? – a zanga do anão acordado na madrugada se mostrava.

- De parecer ridícula com ele.

- ...

O anão se virou para o lado, até agora continuara deitado debruçado, como quem falasse dormindo, sua voz embriagada de sono – e um pouco de destilado de trigo e malte. Fitou o vulto da garota enrolada no cobertor, que os olhos do anão podiam enxergar bem melhor porque foram adaptados à vida nas cavernas.

- Eu pareço com uma flor? Ainda mais uma flor nobre como esta?

- Feh! Ora! – virou-se para o outro lado o anão.

- Ei... Responda! – pela primeira vez ela falou mais alto.

- Bah, vá dormir.

- Então... – ela presumiu que a resposta era óbvia e mesmo que o anão não a enxergasse no escuro, podia saber bem que ela tinha a aparência rústica de uma camponesa, tão bela quanto um torrão de terra podia ser. Só mesmo um estúpido ignorante como aquele seu pretendente teria interesse por ela, mas riria do mesmo jeito se soubesse o que significa o seu nome. Certamente não saberia e acharia melhor o apelido, mais fácil de usar para chamá-la para tirar suas botas, coçar suas costas e preparar sua bebida e comida. Começou a chiar a respiração, comovida pela tristeza destas lembranças, chorava quase em silêncio, mas não conseguia ocultar por completo, de modo que o anão se sentou e lhe dirigiu a voz grave.

- Respeite o seu nome, seus pais o deram a você e é a única herança que você pode garantir. Mesmo que ganhe outros nomes, Crissa ou “garota-peste”, sempre vai continuar tendo o nome que teve quando era uma criança. Tristes são os órfãos que vêm ao mundo sem nome, pois é a marca de que não tiveram também os pais. A exceção são os animais, que não precisam de nome, o que é outra dignidade que dá o nome, a prova de que você não é só um bicho solto no mato.

A rústica lição de Den emocionou Crissa, ou melhor, Crisântema, seu cobertor recebeu suas lágrimas e ela sentiu saudade de casa, da família, especialmente da sua mãe. Fora ela que escolhera seu nome, embora não tivesse crisântemos no jardim, ela nutria especial amor por esta flor, que certa vez viu adornar o vestido de uma princesa.

- Mestre Den... Se é assim, por que não deu nome ao dragão? Só um apelido para cada cabeça?

- E eu por acaso tenho escamas, asas e rabo? Posso criar este filhote, mas ele está longe de ser filho de um anão. – resmungou, bem humorado. Crissa riu com ele e o dragão acordou, confuso e agitado, querendo inteirar-se do assunto.

- O mestre está correto, mas não pensa em dar um nome oficial a ele? É estranho falar sempre dele como se fosse qualquer dragão.

- E do que vou chamar como um, se são três cabeças e cada uma pensa de um jeito? É só um dragão, mas é como se fossem três. Um nome só seria como dar nome a um time, poderia chamá-lo de Trio, Trinca, Trindade, Três, Triplo, Trigão,...

Crissa voltou a rir, alto, inclusive. As cabeças do filhote se levantavam, procurando entender, mas sem obter compreensão alguma. Cobra ficou entediada e abaixou para dormir, Bode bocejou, estalando a língua chiada e lançando um olhar intrigado sobre eles. Leão ficou erguido procurando acompanhar o assunto, mas faltando-lhe contexto e, claro, o domínio da linguagem, piscava, insistente.

O anão sorriu e sinalizou para ela voltar a abaixar a voz. Deitou-se e ficou encarando o teto, depois se virou para o dragão que acabava de deitar as outras duas cabeças. Crissa, continuando sem sono, ficou imaginando e raciocinando mais. De repente, lancetou Den com outra pergunta.

- E o seu nome, Den, é só este nome que tem? Ouvi dizer que os anões têm um nome que recebem quando nascem, depois outro quando se tornam adultos e um terceiro conforme seus feitos. Qual deles é Den?

Den, contudo, fingiu continuar dormindo. A garota inclinou-se em direção a ele, procurando conferir, chegou a lhe cutucar, mas ele não se mexeu. Voltou ao divã, cobriu-se e tentou dormir, sem sucesso, a mente ia agitada. Revirava-se constantemente, impedindo o anão de recuperar o sono com o barulho e o irritando.

- Eu sou chamado Den desde que tive barba cerrada, como se chamava o meu bisavô na mesma idade, o nome de criança não importa e quando deixei o lar, muitos me chamaram de Dungh, que também significa teimoso em um dialeto do leste. Quando é para falar com certo tipo de gente, prefiro que chamem por Dungh.

- Oh... – sorriu admirada, ajeitando-se para ouvir mais. “Teimoso”, realmente era um nome bem apropriado para o mestre anão, analisava divertida.

- O nome está ligado diretamente à glória de um indivíduo, assim como ao seu destino. Os homens dão os nomes por motivos fúteis, imitando outras pessoas, os anões não fazem isto. Seus nomes são bens valiosos, mesmo que não sejam concretos, uma criança tem no nome o afeto da mãe, um adulto carrega o orgulho dos seus ancestrais e um mestre artesão a glória da sua arte. Os reis e senhores podem ter em seu nome uma lembrança de uma batalha ou governança, ligando-os aos seus feitos. Fora disto, estão os nomes dos outros povos, que qualquer um que viaje por muitos deles está fadado a acumular.

A seguir, a pedido da garota, Den contou algumas histórias sobre nomes de anões. Nenhuma que fosse segredo, pelo contrário, eram populares nestas terras e referiam-se a anões muito famosos. Leão ouviu a primeira parte delas, mas depois apenas Bode ficou a escutá-los enquanto a noite corria.

Pela primeira vez, Hermes se levantou primeiro na torre. Ao descer, encontrou o anão roncando alto e a jovem dependurada no divã, quase caindo. Ruborizou-se um pouco, vendo a roupa desalinhada dela e a entrega completa ao sono. Foi levado a pensar quão tarde teriam dormido e porquê. Aproximou-se e o dragão despertou. Cobra já o espreitava desde antes e saltou sobre ele, detida como um cão de guarda preso à coleira, pois o corpo não tinha se levantado.

O arcanista ficou irritado com isto, atribuindo a culpa de sua raiva ao susto, deixou o salão e foi para a cozinha no cômodo ao lado. Pouco depois, o dragão estava lá, aguardando a sua parte na refeição, embora não tivesse caçado nada para cozinharem. Hermes recorreu ao seu tradicional mingau de mel e aveia que por muitos anos solitários foi sua principal refeição matutina. Ofereceu um pouco para o dragão, que negou com repulsa a comida de odor adocicado. Hermes refletia enquanto observava o dragão perambular pela cozinha, em busca de algo interessante para comer. Não obtivera muitos avanços nos estudos e acreditava que tinha chegado ao seu limite, para ir além, o dragão precisaria estar mais velho, ou morto, para poder examinar-lhe por dentro. Nenhuma das opções estava disponível, portanto, só podia esperar que Den atendesse a seu pedido e voltasse à sua torre alguns anos depois.

A entrada ruidosa do anão na cozinha, seguida por mais barulho com a corrida apressada do dragão na direção dele despertaram com um susto do transe reflexivo em que Hermes mergulhara.

- Devemos ir embora, patrão.

- Mas... Hermes ainda não tinha se decidido a deixá-los ir, apesar de estar com seus projetos anteriores estagnados, ele apreciava a companhia.

- Ainda hoje. E se não se importa, eu vou levar a garota para a casa dos parentes, é perigoso que ela tente ir sozinha depois, a menos que tenha planos diferentes para ela.

Crissa tinha sido empregada também na manutenção da casa e das roupas de Hermes, embora muitas destas fossem novas, havia várias, que estavam em desuso por conta de pequenos danos ou encardidos, a torre estava muito mais limpa e as janelas ficavam mais tempo abertas. O cheiro da fumaça do óleo das lamparinas havia sido reduzido e a comida era bem melhor do que os mingaus e sopas que Hermes sabia preparar.

Entretanto, Hermes meneou a cabeça, dispensando a continuidade daqueles cuidados. Coçou o cavanhaque pensando e depois sorriu.

- Está certo. Eu não devo prendê-los mais aqui. Creio que já não posso aprender mais nem lhe ensinar nada sobre seu dragão. Contudo, eu recomendo que vá para o nordeste, tomando muito cuidado quando deixar as terras do Reino. Procure pela academia de magia de Lorde Asteros. Eu estudei lá por cinco anos e um amigo, Ioshum, saberá quem é a pessoa ideal para saber sobre dragões. Não mostre o dragão para nenhum outro mago, pois naquelas terras todos se interessam por criaturas mágicas com muita cobiça.

- Eu agradeço a recomendação, mas não me interesso em viajar tanto para ouvir umas teorias e perder assim um precioso tempo, e o dinheiro que ele vale. Sem bafo de fogo o dragão já tem um poder que me basta. Vou contando com o que tenho em mãos até o momento em que o dragão esteja na hora de cuspir fogo pelas ventas contra os nossos inimigos. – respondeu Den, bem empolgado, o dragão animava-se no mesmo embalo, olhando como se conseguisse vislumbrar um futuro triunfante.

A jovem moçoila entrou no aposento nesta hora, em que o grupo começava a gargalhar e ela, rosto ainda inchado de sono e olhos apertados, sorriu de um jeito bobo e acocorando-se ao lado de Bode, coçou-lhe a papada escamosa para dar “bom dia”.

- O que é tão engraçado, senhores?

- Nada, apenas ouvia o tom orgulhoso da despedida do mestre Den e seu dragão. Eles vão embora ainda hoje. – respondeu Hermes, com um sorriso misterioso na face.

- Ho-... Hoje? Para onde vão? – assustada e arrebatada por um medo terrível de voltar a ficar só nas estradas, Crisântema tirou a mão dos olhos, que os esfregava a esmo, levantou-se e lançou um olhar perdido para o mago, o anão e o dragão.

- Para qualquer lugar onde queiram vender brigas para que possamos comprar e em troca, levar algumas moedas.Den replicou, despreocupado, procurando achar uma conserva para um último petisco na casa deste anfitrião.

- Mas não se preocupe jovem Crissa, pois terás a escolta destes dois combatentes, Den e seu dragão, até a casa de seus tios, ou de seus pais, como preferir. Acredito que eles devam estar deveras preocupados com teu desaparecimento. Embora eu tenha consentido que aqui permanecesse por não haver quem lhe conduzisse com segurança até o lar e para que obtivesse algo do seu tão almejado treinamento de guerreira, devo cessar de imediato esta conduta, pois teu mestre se vai e não há mais nada aqui para si.

Hermes falou com pompa e postura, como o legítimo nobre que pensava ser por praticar a mais alta arte, a magia. Até mesmo teria mostrado um anel ao final, para que ela o beijasse em sinal de gratidão a sua magnanimidade, mas certamente ela não entenderia o gesto e lhe chacoalharia a mão de modo desconcertante. Voltando novamente às suas reflexões enquanto observava as feições da garota, imaginou-se como quem toma um cordeirinho ferido perdido no campo e leva para casa, cuidando dele até que o pêlo crescesse mais, mesmo sabendo quem era o dono, só o devolve quando já estava bem forte e recuperado.

Lágrimas tornaram os olhos verdes da garota brilhantes como esmeraldas e ela tentou a todo custo mantê-las ali, prendendo a respiração e apertando os punhos, mesmo assim duas gotas verteram até quase tocarem o solo, Leão estendeu-se sob elas e capturou-as em seu dorso. O dragão a apoiava sem compreender, Hermes conjecturava quase com certeza que ela nutria sentimentos românticos para com ele, ficando embevecido, mas ainda mais arrogante, atitude na qual fez uma breve reverência e pediu licença para preparar o pagamento de seu distinto guarda-costas. Apenas Den sabia que ali estava uma pessoa se despedindo do seu sonho, ciente de que voltaria para casa e precisaria enfrentar de frente um destino do qual não sabia como evitar. Ele a fitou compreensivo, mas não deu vazão a nenhuma palavra amiga. Abriu o pote de conservas que alcançou subindo em um banco, o colocou sobre a mesa e fez seu desjejum, do qual ela não participou porque não se sentiu disposta, saiu apressada da torre.

Orientado pelo anão – por um pedaço de lingüiça arremessado quando ia seguir a garota, o dragão permaneceu na cozinha. Lá fora, em um dos últimos dias do verão, o sol anunciava o fim da manhã e sobre a relva de uma cor verde forte, à beira do despenhadeiro, sentava-se abruptamente Crisântema, deixando-se chorar à vontade e solitária.

Ninguém foi até ela, do alto da torre, Hermes até chegou a espiar o que se passava, mas a deixou, até que por seu próprio desígnio entrou, por volta de meio-dia. A sala já não era mais seu quarto improvisado, tudo estava arrumado como antes, embora já não tivesse mais as teias de aranha. Den e Hermes desceram as escadas, o anão já ia paramentado, a cota de malha vestida, a capa sobre o ombro, o escudo novo às costas e o machado brilhante às mãos, além de uma bolsa que jogava dentro do alforje neste momento. Hermes também trazia consigo um pacote, o qual deu para a garota quando chegou perto dela.

- É para abrir mais tarde, quando pararem em uma estalagem. Não vão dormir ao relento todos os dias, vão?Hermes perguntou bem humorado, Crissa sorriu lisonjeada, novamente emocionada, mas sem o peso de antes, o choro havia lhe lavado o espírito e agora se sentia muito mais disposta a enfrentar seu futuro.

- Sou muito grata, senhor Hermes. Vou me lembrar sempre destes dias, em que eu conheci um verdadeiro mago! – sorriu, animada, recebendo o embrulho e abraçou o dito mago, com o embrulho entre eles, deixando-o constrangido por alguns segundos, quando o som da porta abrindo chamou sua atenção. Da mesma forma rápida ela soltou-se de Hermes e acenando, correu para trás do dragão e o anão, que deixavam as despedidas para o lado de fora. Ali, com o mago à soleira da porta e os três no caminho, trocaram as últimas reverências e recomendações.

Seguiram por uma trilha que levava a um caminho que não devia voltar a se encontrar com o do recluso arcanista, tão cioso do seu amado artefato que em momento algum ofereceu a visão dele aos que arriscaram suas vidas para garantir a sua posse. Distanciavam-se, sem olhar para trás.

- Nós vamos dormir numa estalagem, não é? – perguntou após caminharem mais de uma légua.

- Ora! Deu para fazer exigências? Onde está o soldado que não teme chuva nem sol? – gargalhou Den, zombando da boca para fora, pois ele também sentiria falta de um abrigo.

- Não, não. Por mim está tudo bem, mas é que... – envergonhada, passou a ponta do dedo sobre o pacote e virou o rosto para o lado.

- Bah! Sabia, tu tem a curiosidade te roendo as tripas não é? – e tornou a gargalhar, apoiando-se no machado para poupar o fôlego. O dragão separava suas cabeças, uma para cada lado, para se inteirar, pois além do anão agir de um jeito diferente, a garota enrubescia o rosto de modo que mais parecia pronta para soltar um dos famosos sopros de dragão.

- Mestre Den! – protestou, mas ele só parou de rir quando assim quis, ou conseguiu.

- Está bem, chegamos lá antes do fim da tarde e ficamos em uma estalagem de um velho que conheci naquele povoado. Devem estar fazendo um pequeno festival por lá, por conta dos ritos da entrada do Outono, sendo que vai poder se divertir um pouco e comer algo de bom.

Enfim Crisântema recuperou as cores e na verdade, até chegou a rir de si mesma, deixando o jovem dragão ainda mais confuso. Para libertá-lo deste atordoamento, ela o provocou o chamando para uma corrida apostada, na qual se divertiram até subir toda uma colina, desabando no chão lá em cima, o dragão ainda disposto e o anão vagarosamente vergado para chegar até lá. Do outro lado, porém, seguia um caminho quase reto, com leve declive, até um círculo de casas com telhado de palha que se encontrava ornamentado com as últimas flores do verão.

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