O formão ia e vinha sobre a madeira sem nós, o pedaço de carvalho ganhava a forma elíptica ideal para servir de empunhadura ao machado de Den, do qual sobrou apenas a lâmina após o derradeiro golpe na batalha contra Leodred. A luz vinha do sol poente, escassa pela estreita janela da torre, atingia o aço e refletia outra vez nos olhos admirados do anão, que por sua vez estava refletido no próprio fio da lâmina, em uma infinita repetição de reflexos que o encantava. Mais que sua figura, olhava com atenção as novas manchas adquiridas no corpo da lâmina. A temperatura que atingira enquanto carregou o raio purificou o ferro, lançando fora impurezas e o deixando num ponto que sua forja original jamais teria como alcançar. Não era tão quebradiço quanto o ferro fundido, nem mole como o ferro que só é aquecido. Mil marteladas não se equivaleriam àquela experiência. Única, pois a maior chance teria sido do ferro fender e arruinar-se-ia a arma, mas o artesão que fez o machado deveria ter grande habilidade, pois o metal resistiu e sobreviveu uma arma mais poderosa.
- Ficou um belo cabo. Vai entalhar runas nele agora? – soou a voz da jovem Crissa atrás do anão.
- Grm... Eu não sou um artífice, nem um bruxo, não tenho porque fazer runas no cabo da arma. Só vou lixar um pouco mais isto aqui para deixar mais áspero para segurar. Depois vou ver se consigo umas barbatanas para colocar... – Den falava para si, mas ao final volveu-se para o lado a fim de ver se alguém lhe dava atenção. Crissa estava lá, concentrada, mas com uma dúvida expressa no rosto. – O que foi? Nunca viu um anão que não fosse um artesão?
- Na verdade...
- Pois eu não sou, nunca fui e conheço muitos outros que também não são.
- Eu até me perguntava isto, mas a verdade é que eu nunca tinha visto um anão antes, mestre Den. – confessou Crissa, um pouco assustada com a aspereza e rancor das palavras de Den. Havia algo de vergonha naquilo para ele.
- Não devia dar atenção às histórias sobre anões. Não foram contadas por eles, portanto, é de se esperar que muito delas seja inventado.
Mais uma reprimenda que não sabia bem porque ouvia. E mais uma vez escutava calada, o que parecia agradar Den, pelo menos, ele fungava menos insatisfeito do que quando ouvia argumentos de Hermes ou a indiferença do dragão. Foi exatamente assim que reagiram às suas críticas após a batalha da torre.
A magia de Hermes, os saltos do dragão e mesmo a pedrada de Crissa, tudo foi criticado por Den, que saíra da batalha com vários ferimentos, muito sujo e sem seu machado de estimação, nem o escudo velho que sempre carregava. Nada fazia cessar seu mau humor e não admitia que apesar de imprevistos, os atos dos companheiros o ajudaram a sobreviver na batalha, direta ou indiretamente.
Passaram-se três dias sem que ele voltasse a dirigir a palavra a algum deles. Apenas permitia que o dragão ficasse perto dele. Den foi ao bosque, voltou com um tronco de carvalho, do qual tirou um único cabo e do resto se fez lenha. Apenas tornou a falar com Hermes quando percebeu que sua acha tinha sido purificada pelo relâmpago, dando um inesperado abraço no arcano. A partir dali começou a admitir que a magia pudesse ser de alguma forma útil e que ela tinha sido na última luta.
O dragão se encontrava animado, Hermes o andava estimulando a manifestar seus dons inatos, tendo realçado seu interesse quando descobriu que ele havia rompido sua magia apenas com a força de sua vontade. Também estavam todos na expectativa de que Cobra, Leão e Bode voltassem a conseguir aquecer em suas gargantas o hálito de fogo, habilidade extraordinária e famigerada dos dragões.
Hermes explicou que o sopro de fogo é um dom inato dos dragões vermelhos, uma das espécies mais expressivas de dragões, a manifestação viva do poder do vulcão. Entretanto, também era conhecido que dragões de ouro e algumas espécies mais raras também o faziam. Além disto, havia algumas magias que simulavam esta habilidade e os dragões com seu dom de controlar os elementos brutos quando atingiam a maturidade o podiam replicar.
- Mas que espécie de dragão é você? – perguntou-se Hermes, enquanto analisava a anatomia do filhote. Não tinha as escamas predominando em uma cor só, portanto não era das Cinco Casas Cromáticas de Tiamat, a saber, Vermelho, Azul, Verde, Preto e Branco. Nem tinham o tom brilhante dos dragões metálicos da Casa de Bahamut, da Prata ou do Ouro. Muito menos pertencia à miríade de cores das gemas da terceira casa principal dos dragões. Além disto, tinha três cabeças, o que não era normal, embora fosse registrada a existência de dragões de duas ou mais cabeças nos tomos sobre dragões. Hermes tinha um deles, mas parecia algo amador, um simples bestiário feito para leigos.
- Precisamos de um especialista. – sentenciou o mago. O problema, segundo ele, seria encontrar um, já que dragões eram figuras tão raras nos últimos dias que poucos estudiosos se dedicavam a eles com profissionalismo. Dragões eram cada vez mais próximos dos mitos, frequentemente outras feras aladas e reptílicas eram confundidas com dragões reais. Também não estariam Den e Hermes enganados sobre o filhote encontrado? Seria ele mesmo um dragão? Como seria sua mãe? Perguntavam-se.
Hermes tinha convidado Den e Crissa para ficarem o quanto quiserem em sua torre, pelo menos até que as cicatrizes das feridas de Den estivessem completamente fechadas. O homem agora parecia outro, mais nobre e digno, não mostrava medo de inimigos e dizia que o elfo que desejava lhe tomar o artefato jamais o venceria em sua torre, pois ali seu poder era cinco vezes maior. Den não sabia medir o poder de Hermes, mas desde que viu o relâmpago que ele invocou dos céus para seu machado, passou a respeitá-lo um pouco mais e dava ouvido aos seus conselhos.
- Eu vou embora amanhã, Hermes, muito agradecido por tua acolhida prolongada, mas a paga já foi feita, agora vou em busca da próxima. – dizia Den com uma longa reverência, acompanhada pelas três cabeças do filhote de dragão.
- Espere um pouco mais, mestre Den, não tem motivo para pressa. Se a questão é perder dinheiro por ficar parado, eu o recompenso com mais ouro, mas gostaria que ficasse mais, ainda não terminei o artigo que escrevia com base nas experiências com o dragão. Além disso, ir à vila ainda não é seguro para mim, eu gostaria que ficasse como meu guarda-costas até ter certeza que não estão tramando uma emboscada contra minha pessoa.
Uma das famosas bufadas de Den ressonou em frente ao mago, pensando um pouco mais, veio a aceitar, indo de encontro à sua promessa, estava ganhando dinheiro pelo fato de ter adotado o dragão. Se era mais ou menos do que teria vendendo sozinho sua perícia, não sabia precisar, pois nos últimos tempos andava aquecido o mercado de mercenários, na mesma proporção que o de salteadores.
Acabou por passar o restante da primavera e o verão inteiro enfurnado na torre de Hermes, dormindo sobre uma pele de cervo, ao lado do dragão e do divã que se tornara cama para a menina. Pelas manhãs, saíam os três para caçar coelhos e pássaros para o almoço. Quando voltavam, Hermes havia acabado de despertar, bem depois do nascer do sol. Desjejuavam juntos o cozido e depois começavam os estudos de Hermes, muitas das vezes participando Den e o dragão, este como objeto de estudo e aquele apenas acompanhando com muito interesse. Outras vezes iam Den e seu parceiro treinar, Den tinha obtido um novo escudo na cidade, mais reforçado que o primeiro e se empenhava bastante em ajustar o equilíbrio das armas renovadas. O dragão treinava seu vôo, mas ainda continuava incapaz de sustentar-se no ar, tendo por instrutoras as borboletas que surgiam com freqüência no tempo ameno. Em outras vezes, apenas ficavam os três ociosos sobre o alto da torre, espiando o céu e as colinas, cada um em seus próprios pensamentos, sempre silenciosos. A garota procurava estar sempre com eles e vinha de sua garganta os sons que tinham forma de palavras naquele grupo.
Procurar colméias, raízes e nozes, além de lenha e ouvir rumores na aldeia, eram outras atividades que Crissa tinha de fazer, mas sempre fazia isto com pressa, para voltar a estar perto do dragão e do anão. O filhote começou a apreciar aquela companhia jovem, mais semelhante a ele no espírito, curiosa e animada. Vez em quando Den procurava por seu parceiro para treinarem e o encontrava brincando com a menina nos morros gramados, correndo e pulando. Ria e conversava com ele, como se fosse um de seus irmãos mais novos. Ensinando jogos e contando histórias, ela o entretecia sempre que tinham um tempo livre.
Os olhos escuros de Den fitavam com um ar sombrio a dupla durante estas atividades, a despeito da inocência deles, julgava que algo podia dar errado. No mínimo, aquela infantilidade não ajudava em nada o dragão a ser violento como devia em uma luta, uma besta-fera temível em nada se parecia com aquela criatura que saltava e fazia cambalhotas ao lado de uma pessoa humana, como um cãozinho dócil.
- Leão! – chamava o anão, cessando a brincadeira e o chamando para treinarem. Ou Cobra, ou Bode, chamava qualquer um deles, se um não atendia, recorria ao outro, sempre algum atendia. Crissa apenas podia se resignar, vendo o dragão indeciso se atendia ou não a convocação, ela acenava para que ele fosse e depois sorria para o anão, correndo atrás para ver o treino.
O modo que o anão optou para ver menos escapadas do treino foi incluir Crissa neles, se a garota queria se tornar uma guerreira andarilha como ele – ainda que fosse falsa a história que sustentava para Hermes, então, mesmo que Den não acreditasse que ela teria sucesso, precisaria aprender como manejar uma arma. Emprestou-lhe sua machadinha e a orientou com algumas informações sobre o básico da arte da guerra. Hermes não concordou com ele, pois seria mais ajuizado aconselhar a garota a desistir desta idéia antes que se aleijasse ou morresse em vão. O próprio anão se arrependeu, vendo a garota grudar em sua sombra como nódoa de fruto. Sempre pronta a aprender algo com ele, inclusive os maus modos, que ela imitava, em tentativas nem sempre com logro. Algumas arrancando risadas do anão, como os arremedos de arrotos e de flatos que ela fazia, muito mais suaves que os trovões provocados pelo sujeito atarracado após as refeições.