No segmento do caminho em que trilhavam, os aventureiros passavam agora por uma terra fofa, e as pedras já não os atrapalhavam mais. Algumas árvores, de porte mediano, estavam espalhadas por aquela região. O grupo saíra do pedregal, e o grande Mignail podia ser perfeitamente visto, graças ao sol que apontava atrás das colinas que cercavam a margem norte do rio.
O céu tinha uma cor laranja e os viajantes, exaustos, pararam à beira do rio. As águas que corriam ali eram escuras, e rumavam fortemente para a direção sudeste. Assentados ao redor de um bocado de lenha, os três comeram e repousaram próximos ao que agora era uma fogueira acesa por uma das magias de Cliveril.
- Bramir, sabe algo a respeito dessas águas, ou do território que as cerca? – indagou Cliveril.
- Por que perguntas isso? – retrucou o elfo.
- Pergunto isso, pois percebi o seu silêncio durante alguns trechos de nossa jornada até aqui, e o modo respeitoso com que se portou quando tocou no nome deste rio. – respondeu o mago enquanto apontava seu cajado para o Mignail.
O elfo parou e olhou na direção da margem norte do rio.
- Já que insiste, contarei a vocês. Mas é uma história que envolve aquele que temos como inimigo. – começou Bramir.
- Aquele que trouxe o mal ao povo do extremo norte? – perguntou Ávilas espantado.
- Exatamente. A “forma viva do mal”, tempos atrás arruinou a morada dos meus ancestrais, e consumiu com grande parte do meu povo. – explicou o elfo – Aquele mago das trevas! Adentrou sozinho naquela floresta, que mesmo guardada por poderes élficos, acabou tornando-se fortaleza inicial para o mal que agora nos sobrevém.
Ávilas escutava Bramir com muita atenção, e Cliveril observava o elfo, como que pudesse ver em seus olhos claros a tristeza de seus ancestrais.
- Parte do povo élfico que habitava a antiga Floresta de Isenrril, no extremo norte, conseguiu fugir e escapar dos poderes malignos “daquele homem”, se é que pode assim ser chamado. Dentre os que fugiram para o sul, estava o mais poderoso elfo dos meus ancestrais. Devido à sua grandeza, a antiga floresta do extremo norte recebeu seu nome.
- Isenrril? – interrompeu-lhe Ávilas.
- Sim, – continuou Bramir – pouco se sabe sobre sua fuga, mas sabe-se que ele habitou a região que passamos. Esse terreno, agora rochoso, conhecido como Pedregal da Morte, já foi uma bela e pequena floresta. Dizem que “aquele que trouxe o mal” caçou-lhe até encontrá-lo.
- E o que aconteceu quando Isenrril se encontrou com “aquele envolto pela penumbra”? – interrompeu-o Ávilas novamente.
- Acalme-se Ávilas – intrometeu-se Cliveril – deixe Bramir dar seqüência em sua história!
- O encontro entre aquelas forças opostas foi mortal – disse o elfo – o povo élfico sobrevivente à batalha anterior apavorou-se, e se espalhou por várias direções. Eu sou um dos descendentes dos fugitivos que rumaram para o extremo sul. Enfim, o grande Isenrril fugiu novamente, mas dessa vez para a direção errada. Seguiu para o norte, rumo a este lugar em que estamos. Seu ato foi heróico, pois fizera isto apenas para roubar a atenção do “mago das sombras”, que esquecendo o povo que fugira para o sul, voltou-se apenas para Isenrril.
- E o que aconteceu? – indagou Ávilas, curioso, ignorando o comentário anterior de Cliveril.
- Bem, - falou Bramir – sobre o combate que ocorreu entre eles, não se sabe bem o que é verdade, e o que é mito... A versão que sei, é que nesse lugar não havia água alguma correndo. Não existia aqui o grande Mignail. Pelo que sei, Isenrril estava disposto a morrer juntamente com o “mago da penumbra” neste local. Então, depois de atrair-lhe para cá, o grande elfo conjurou uma magia suicida, que fez água jorrar, por o que antes seria uma enorme trilha, do noroeste para o sudeste, rasgando a terra numa velocidade incrível. A partir daí é que as histórias se divergem. O que me foi passado é que o “mago da penumbra” invocou um dragão negro, que veio voando e tirou-lhe do solo em que a forte correnteza passaria. O que aconteceu depois, já podem imaginar.
- Imagino, mas não tenho certeza – disse Ávilas – conte-nos o que sabe, amigo Bramir.
- A correnteza veio de forma avassaladora, e Isenrril estava exausto, não podendo ao menos mover-se por causa da magia que utilizara. O que dizem é que o “mago da penumbra” viu, montando o dragão negro que havia invocado, a morte do grande elfo Isenrril, que se afogou nas águas da sua própria magia.
- Era isso que tinha imaginado... – disse Ávilas desanimado por prever o triste fim da história.
- Para completar esta história, não posso deixar de dizer que o “mago da penumbra” ainda invocou essas criaturas das trevas, que enfrentamos a pouco, para residir na floresta em que devastara e guardar o rio, que para “ele” é amaldiçoado, pois quase trouxe sua derrocada. – concluiu o elfo.
- Então além de perseguir Isenrril, o “mago das trevas” ainda destruiu por duas vezes sua morada! – falou Ávilas, sentindo a raiva queimando seu interior.
- Maldito Séfirus! – gritou Bramir, fazendo com que alguns pássaros, que estavam sobre as árvores próximas dali, levantassem vôo.
Cliveril arregalou os olhos fitando o elfo. Ávilas parecia espantado com o nome que o companheiro pronunciara.
- Você sabe o nome “dele”?! – resmungou Ávilas atordoado.