– Pra que a paixão ou amigos? Isso só machuca as almas das pessoas, e machucou a mim fortemente. – Com um gesto de mão mostrava a cadeira que estava de frente a minha escrivaninha. - Sente-se, contarei desde quando entrei neste inferno!
Quando entrei nesse lugar era apenas para meu sustento, isso eu pensei, daria apenas alguns meses até que conseguisse outra coisa. Meu primeiro dia foi com os guardas me ensinando como o sistema seria. Não tinha grande destreza com espadas, ou com alguma habilidade de combate. Mas, eu estava ali, vinda de uma cidade pequena e calma. Não poderia ser persuadida por nenhum homem ou prisioneiro, sendo a única mulher do ambiente. Entretanto, quando entrava na minha primeira cela para levar o primeiro prisioneiro, não percebi que aqueles olhos castanhos iriam me fascinar pelos próximos meses.
Ele era mais alto que a mim; mesmo fraco, parecia ter músculos, tinha cabelos castanhos escuros e cacheados, sua barba mal feita demonstrava o tempo que estava ali. No primeiro dia foi horrível. Apesar de não poder mostrar o sentimento de horror que a batia ao ver aquele homem sofrendo, já senti que aquele lugar não era para mim. Pensei em encurtar os meses para dias. Então veio o segundo dia, meu trabalho era acordar o prisioneiro à noite e conduzi-lo até o local de tortura, trazendo-o logo depois de ver tudo o que faziam com ele. E já no segundo dia o sentimento de ódio desse inferno já me conduzia.
Foi fechando a cela daquele homem, que me veio à cabeça o sofrimento que ele passava. Agachei, e assim comecei a olha-lo tremendo de frio.Foi por alguns momentos. Eu sabia de quem se tratava, mas não achava justo o que Rei tinha ordenado que fizessem com ele.Tinha consciência da historia dele, não por curiosidade, mas sim por um único motivo...
– Essa noite não – respondia batendo na grade. – Não irá dormir. Quero saber o que realmente aconteceu naquele dia.
– Sen...nho...rita. – Sua voz saia trêmula – Sabe muito bem o que aconteceu.
– Então, aquilo é verdade? – Dizia, em um tom frio – Meu irmão estava entre os seus soldados. Eu sei que ele nunca faria o que disseram que ele e o senhor fizeram.
– Acreditarás na minha historia? – Ele estava deitado, ficou apenas me olhando.
– Conte, eu direi se acredito ou não. – Joguei uma broa de milho fresca para o mesmo. Ele sentou-se, e pegou rapidamente o alimento, depois cheirou e comeu como se aquilo fosse sua única comida de anos. Assim me contou.
Após a conversa o ódio em meu peito por todos aqueles que mangavam do nome da minha família por conta do meu irmão era sentido. Saia de perto do mesmo rapidamente, respondendo algo a ele, não lembro bem. Foi um dia em que não consegui dormir, pensando no que realmente houve.
Depois dessa conversa, comecei a falar mais com esse prisioneiro, teve épocas em que passávamos a noite falando e assim logo ficamos próximos, tão próximos que sabíamos que a intimidade que estávamos tendo ali era impossível para nós, um prisioneiro e uma guarda.
Passaram-se meses, me acostumei com a tortura daqueles homens.Mas existia um único que não consegui levantar a mão para chicotear; era o primeiro, de olhos castanhos. Para isso não acontecer, consegui mexer com a cabeça daqueles soldados e do comandante; foram meses de manipulações e carisma. Até que passaram a esquecer dele. E assim respirei fundo, parecia que o destino e os deuses estavam ajudando.
Mas o dia em que mudou tudo isso foi o pior dia da minha vida. Quando tornei a primeira supervisora deste inferno. Descobri que as últimas ordens para o antigo comandante e as minhas primeiras, elas vieram diretamente do Rei, tratava-se execução de metade dos presidiários: o nome daquele homem estava presente.
O coração doía, não podia tirar a vida daquele que me ensinou, mesmo sendo um prisioneiro, a lutar. Então aquela noite seria a que eu o libertaria da cadeia, provavelmente também a última que nos veríamos.
Não foi complicado tira-lo da cela e leva-lo para o caminho da saída. O que doeu mais foi o que ele falou para mim e depois fez... – Tocava na nuca relembrando a cena. – Ele disse que queria ir comigo para longe dali, parecia que iria teimar com isso, e no fim com certeza iria aceitar fugir com ele, mas ao virar a face para o lado oposto do mesmo, um empurrão pela nuca e uma queda é só que me lembro.
Quando acordei, minha cabeça doía muito, guardas estavam ao meu redor, pareciam preocupados... Sim ele me traiu. Doeu muito no coração.Passei dias tentando saber o porquê daquilo, me recusava a acreditar que ele era um homem grotesco, mas parecia impossível!
– Agora me perguntas o porquê continuo aqui?! Minha mente diz que é mentira, meu coração crê na esperança que ele irá voltar para me buscar. Tirar-me desse lugar, deste confinamento que está preste a tombar numa guerra daqui a alguns dias.
– Ah sim, como fiquei no cargo?! Também não sei. – Levantava da cadeira indo em direção as espadas. – Normalmente tirariam a pessoa, e colocaria alguém que almeja o cargo. Mas, quando pensei que este erro, me afetaria para sempre aqui, apenas fui absolvida e o caso abafado. Não por mim, pelo rei... – Pegava uma das espadas, e verificava a lamina. – Bem, não temos mais o que conversar, meus guardas vãos lhe mostrar a saída, até outro dia. Se não morrer.
• Em 05 de Agosto de de 2012 às 20:08